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Apesar da vida curta - morreu de
tuberculose em 1934, aos 37 anos - o pensador bielo-russo teve uma
produção intelectual intensa. Formado em Direito, também fez
cursos de Medicina, História e Filosofia. Por motivos políticos,
suas obras foram censuradas e chegaram ao Ocidente apenas nos anos
60 - no Brasil, só no início da década de 80.
O que ficou
O aprendizado é essencial para o
desenvolvimento do ser humano e se dá sobretudo pela interação
social.
Um alerta
A idéia de que quanto maior for
o aprendizado maior será o desenvolvimento não justifica o
ensino enciclopédico. A pessoa só aprende quando as
informações fazem sentido para ela.
Um
visionário
- O
indivíduo não nasce pronto nem é
cópia do ambiente externo. Em sua evolução intelectual há uma
interação constante e ininterrupta entre processos internos e
influências do mundo social. Por defender essa idéia, o
psicólogo Lev Vygotsky é considerado um visionário. "Ele
se posicionou contra as correntes de pensamento que eram aceitas
em sua época". O estudioso nascido na Bielo-Rússia se contrapôs ao
pensamento inatistas, segundo o qual as pessoas já nascem com suas
características, como inteligência e estados emocionais,
pré-determinados. Da mesma forma, enfrentou o empirismo, corrente
que defende que as pessoas nascem como um copo vazio e são
formadas de acordo com as experiências às quais são submetidas.
"Ele construiu uma terceira via, a sociointeracionista".
Vygotsky entende que o desenvolvimento é
fruto de uma grande influência das experiências do indivíduo.
"Mas cada um dá um significado particular a essas
vivências. O jeito de cada um aprender o mundo é
individual". Para ele,
desenvolvimento e aprendizado estão intimamente ligados: nós só
nos desenvolvemos se (e quando) aprendemos. Além disso, o
desenvolvimento não depende apenas da maturação, como
acreditavam os inatistas. "O ser humano tem o potencial de
andar ereto, articular sons, conquistar modos de pensar baseado em
conceitos. Mas isso resulta dos aprendizados que tiver ao longo da
vida dentro de seu grupo cultural".
"Apesar de ter condições biológicas de falar, uma criança
só falará se estiver em contato com uma comunidade de
falantes."
Natureza social
No Brasil, Vygotsky é estudado
há pouco mais de uma década. Segundo a pedagoga Maria Teresa
Freitas, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que
pesquisou a difusão do trabalho dele por aqui, suas idéias
chegaram no fim dos anos 70, trazidas por estudiosos que as
conheceram no exterior. Mas sua obra só começou a ser divulgada,
de fato, nos anos 80, ao mesmo tempo em que a linha educacional
construtivista se expandia, impulsionada pela psicóloga argentina
Emilia Ferreiro, discípula de Piaget. Embora não tenha elaborado
uma pedagogia, Vygotsky deixou idéias sugestivas para a
educação. Atento à "natureza social" do ser humano,
que desde o berço vive rodeado por seus pares em um ambiente
impregnado pela cultura, defendeu que o próprio desenvolvimento
da inteligência é produto dessa convivência. Para ele, "na
ausência do outro, o homem não se constrói homem".
Conhecimento e sempre intermediado
Para Vygotsky, a vivência em
sociedade é essencial para a transformação do homem de ser
biológico em ser humano. É pela APRENDIZAGEM nas relações com
os outros que construímos os conhecimentos que permitem nosso
desenvolvimento mental. Segundo o psicólogo, a criança nasce
dotada apenas de FUNÇÕES PSICOLÓGICAS
ELEMENTARES, como os
reflexos e a atenção involuntária, presentes em todos os
animais mais desenvolvidos. Com o aprendizado cultural, no
entanto, parte dessas funções básicas transforma-se em
FUNÇÕES PSICOLÓGICAS SUPERIORES, como a consciência, o
planejamento e a deliberação, características exclusivas do
homem. Essa evolução acontece pela elaboração das
informações recebidas do meio. As
informações nunca são absorvidas diretamente do meio. São
sempre intermediadas, explícita ou implicitamente, pelas pessoas
que rodeiam a criança, carregando significados sociais e
históricos. Isso não significa que o indivíduo seja como
um espelho, apenas refletindo o que aprende. As
informações intermediadas são reelaboradas numa espécie de
linguagem interna". É isso que caracterizará a individualidade. Por isso
a linguagem é duplamente importante para Vygotsky. Além de ser o
principal instrumento de intermediação do conhecimento entre os
seres humanos, ela tem relação direta com o próprio
desenvolvimento psicológico. "Nenhum conhecimento é construído pela pessoa sozinha, mas
sim em parceria com as outras, que são os mediadores".
APRENDIZADO CONTÍNUO
Segundo Vygotsky, a evolução
intelectual é caracterizada por saltos qualitativos de um nível
de conhecimento para outro. A fim de explicar esse processo, ele
desenvolveu o conceito de ZONA DE DESENVOLVIMENTO
PROXIMAL, que
definiu como a "distância entre o nível de desenvolvimento
real, que se costuma determinar através da solução independente
de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado
através da solução de problemas sob a orientação de um adulto
ou em colaboração com companheiros mais capazes".
DESENVOLVIMENTO REAL
É determinado por aquilo que
a criança é capaz de fazer sozinha porque já tem um
conhecimento consolidado. Se domina a adição, por exemplo, esse
é um nível de desenvolvimento real.
ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL
É a distância entre o
desenvolvimento real e o potencial, que está próximo mas ainda
não foi atingido.
O MEDIADOR
É quem ajuda a criança
concretizar um desenvolvimento que ela ainda não atinge sozinha.
Na escola, o professor e os colegas mais experientes são os
principais mediadores.
DESENVOLVIMENTO POTENCIAL
É determinado por aquilo que a
criança ainda não domina, mas é capaz de realizar com auxílio
de alguém mais experiente. Por exemplo, uma multiplicação
simples, quando ela já sabe somar.
POR QUE O NOME SOCIOCONSTRUTIVISMO?
Esse termo (ou, como proferem alguns especialistas, sociointeracionismo) é usado para fazer
distinção entre a corrente teórica de Vygotsky e o
construtivismo Jean Piaget. Segundo Maria, ambos são
construtivistas em suas concepções do desenvolvimento
intelectual. Ou seja, sustentam que a inteligência é construída
a partir das relações recíprocas do homem com o meio. Os dois
se opõem tanto à teoria empirista (para a qual a evolução da
inteligência é produto apenas da ação do meio sobre o
indivíduo) quanto à concepção racionalista (que parte do
princípio de que já nascemos com a inteligência pré-formada).
Para o ser humano, segundo Vygotsky, o meio é sempre revestido de
significados culturais. Por exemplo, o objeto armário (meio) não
tem sentido em si. Só tem o sentido cultural) que lhe damos, como
serr útil ou inútil, valioso ou não, rústico ou sofisticado e
assim por diante. E os significados culturais só são aprendidos
com a participação dos mediadores. O fator cultural, básico
para Vygotsky, e pouco enfatizado por Piaget, é a diferença
central entre os dois teóricos construtivistas. Ambos divergem
também quanto à seqüência dos processos de APRENDIZAGEM
e de
DESENVOLVIMENTO MENTAL.
Para Vygotsky, é o primeiro que gera o
segundo. Em suas palavras, "o aprendizado adequadamente
organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento
vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam
impossíveis". Piaget, ao contrário, defende que é o
desenvolvimento progressivo das estruturas intelectuais que nos
torna capazes de aprender (fases pré-operatóra ou
lógico-formal).
A escola é inútil se fica só no que a
criança sabe
Além do fato de ser professor, a
preocupação de Vygotsky com a educação tinha também motivos
políticos, pois era um de seus compromissos revolucionários.
"Ele queria acelerar, pela educação, o desenvolvimento da
Rússia, então atrasada e iletrada!" Coerentemente, sua teoria explica a evolução intelectual
como um processo constante que pode ser impulsionado também com
à ajuda externa.
Nessa perspectiva, a educação
não fica à espera do desenvolvimento intelectual da
criança. Ao contrário, sua
função é levar o aluno adiante, pois quanto mais ele aprende,
mais se desenvolve mentalmente. Segundo Vygotsky, essa
demanda por desenvolvimento é característica das crianças. Se
elas próprias fazem da brincadeira um exercício de ser o que
ainda não são, a escola que se limita ao que elas já sabem é
inútil.
Priorizando as interações entre os
próprios alunos e deles com o professor, o objetivo da escola,
então, é fazer com que os CONCEITOS
ESPONTÂNEOS, que as
crianças desenvolvem na convivência social, evoluam para o
nível dos CONCEITOS CIENTÍFICOS.
Nesse sentido, o educador
assume o papel de mediador privilegiado na formação do
conhecimento.

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