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Jean Piaget

Nascido na Suíça, em 1896, numa família rica e culta, aos
7 anos já se interessava por estudos científicos. Biólogo de
formação, estudou Filosofia e doutorou-se em Ciências
Naturais aos 22 anos. Em 1923, lançou A linguagem e o
Pensamento na Criança, o primeiro de seus mais de sessenta
livros. Faleceu em 1980, na Suíça.
O que ficou
É na relação com o meio que a criança se desenvolve,
construindo e reconstruindo suas hipóteses sobre o mundo que a
cerca.
Um alerta
O professor deve respeitar o nível de desenvolvimento das
crianças. Não se pode ir além de suas capacidades nem
deixá-las agir sozinhas.

A teoria do conhecimento, construída por Jean Piaget, não
tem intenção pedagógica. Porém, ofereceu aos educadores
importantes princípios para orientar sua prática. "Piaget
mostra que o sujeito humano estabelece desde o nascimento uma
relação de interação com o meio", explica Jean-Marie
Dolle, professor emérito da Universidade Lumière-Lyon 2, na
França, e especialista na obra piagetiano. "É a relação
da criança com o mundo físico e social que promove seu
desenvolvimento cognitivo", completa o professor Mário
Sérgio Vasconcelos, coordenador do curso de pós-graduação em
Psicologia da Universidade Estadual Paulista, campus de Assis.
Para Piaget, a forma de raciocinar e de aprender da criança
passa por estágios. Por volta dos 2 anos, ela evolui do
estágio sensório-motor, em que a ação envolve os órgãos
sensoriais e os reflexos neurológicos básicos (como sugar a
mamadeira) e o pensamento se dá somente sobre as coisas
presentes na ação que desenvolve, para o pré-operatório.
"Nessa etapa, a criança se torna capaz de fazer uma coisa
e imaginar outra. Ela faz isso, por exemplo, quando brinca de
boneca e representa situações vividas em dias
anteriores", explica Vasconcelos. Outra progressão se dá
por volta dos 7 anos, quando ela passa para o estágio
operacional-concreto. Aqui, consegue refletir sobre o inverso
das coisas e dos fenômenos e, para concluir um raciocínio,
leva em consideração as relações entre os objetos. Percebe
que 3 - 1 = 2 porque sabe que 2 + 1 = 3. Finalmente, por volta
dos 12 anos, chegamos ao estágio operacional-formal. "O
adolescente pode pensar em coisas completamente abstratas, sem
necessitar da relação direta com o concreto. Ele compreende
conceitos como amor ou democracia."
Essas informações, bem utilizadas, ajudam o professor a
melhorar sua prática. "Devemos observar os alunos para
tornar os conteúdos pedagógicos proporcionais às suas
capacidades", recomenda Dolle. Para Vasconcelos, a criança
é um pesquisador em potencial. "Levantando hipóteses
sobre o mundo, ela constrói e amplia seu conhecimento."
Nesse processo, você, professor, tem papel fundamental. Ser
construtivista não é deixar o aluno livre, acreditando que
evoluirá sozinho. "O mestre precisa proporcionar um
conflito cognitivo para que novos conhecimentos sejam
produzidos", endossa Ulisses Araújo, professor do
Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de
Educação da Universidade Estadual de Campinas.
"Uma máxima da teoria piagetiano é que o conhecimento
é construído na experiência". Isso fica claro quando se
estuda a formação da moral na criança, campo a que o pensador
suíço se dedicou no início da carreira e no qual Araújo se
especializou. "Para Piaget, o que permite a construção da
autonomia moral é o estabelecimento da cooperação em vez da
coação, e do respeito mútuo no lugar do respeito
unilateral". "Dentro da escola, isso significa
democratizar as relações para formar sujeitos
autônomos."

UM GÊNIO SUÍÇO ENTRA NA NOSSA
ESCOLA
Jean Piaget foi um daqueles meninos que os professores de hoje
identificariam como um superdotado. Ou que os colegas de classe
chamariam de CDF. Precoce, com apenas 10 anos publicou em
Neuchâtel, sua cidade natal, na Suíça, um artigo com estudos
sobre um pardal branco. Aos 22, já era doutor em Biologia.
Intelectualmente insaciável, escreveria cerca de setenta livros
e 300 artigos sobre Psicologia, Pedagogia e Filosofia. O
próprio lar de Piaget foi uma espécie de extensão da
universidade. Casou-se com uma assistente e desvendou muitos dos
enigmas da inteligência infantil dentro de casa, observando os
próprios filhos. Concluiu que a criança tem uma forma própria
e ativa de raciocinar e de aprender, que evolui, por estágios,
até a maturidade intelectual. Não é um adulto em miniatura.
Seus erros apenas caracterizam essa forma particular de pensar.
A celebridade de Piaget e sua importância para a educação
vêm exatamente desses estudos. Já nos anos 20, pedagogias
inovadoras encontraram em sua obra a sustentação científica
que lhes faltava. "Destacando o papel ativo da criança no
aprendizado, seus trabalhos deram base aos educadores da Escola
Nova", explica Lino de Macedo, especialista piagetiano da
Universidade de São Paulo (USP). A Escola Nova era um movimento
de educadores europeus e norte-americanos que contestava a
passividade a que a criança estava condenada pela escola
tradicional. "Piaget defendeu principalmente a Escola
Ativa", comenta o psicólogo Mário Sérgio Vasconcelos, da
Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). A Escola Ativa era
uma corrente da Escola Nova à qual se alinhava, por exemplo, o
pedagogo Célestin Freinet. "Foi só em 1936", diz
Mário Sérgio, "que Piaget chegou ao meio educacional
brasileiro, com o texto O Trabalho por Equipes nas Escolas:
Bases Psicológicas, traduzido pelo professor paulista Luiz
Fleury."
Foi preciso quase meio século, contudo, para que sua
influência se fizesse sentir mais amplamente no ensino básico
brasileiro - e de maneira nem sempre percebida com clareza. É
que as idéias de Piaget vêm entrando nas nossas escolas sob o
nome de construtivismo. E muita gente associa o termo apenas à
psicóloga Argentina Emilia Ferreiro, a grande divulgadora dessa
linha educacional no Brasil desde o início dos anos 8O.
Acontece que Emília é Piaget puro. Por isso, falar em
construtivismo é falar principalmente em Piaget.

Para o biólogo que Piaget nunca deixou de ser, "vida
é, em essência, auto-regulação". Ele incluía aí vida
mental, pois achava que é para manter um equilíbrio dinâmico
com o meio ambiente que desenvolvemos a inteligência. Quando o
equilíbrio se rompe, o indivíduo age sobre o que o afetou
(seja um som, uma imagem ou uma informação) buscando se
reequilibrar. "Para Piaget, isso é feito por ADAPTAÇÃO
e por ORGANIZAÇÃO", explica Maria
Tereza Coutinho, professora de Psicologia da Educação da
Universidade Federal de Minas Gerais. A
ADAPTAÇÃO tem duas formas básicas: a
ASSIMILAÇÃO e a ACOMODAÇÃO. Na ASSIMILAÇÃO, o
indivíduo usa as estruturas psíquicas que já possui. Se elas
não são suficientes, é preciso construir novas estruturas.
Isso é ACOMODAÇÃO. Piaget diz
que "na assimilação e na acomodação se pode reconhecer
a correspondência prática daquilo que serão mais tarde a
dedução e a experiência: a atividade da mente e a pressão da
realidade". Já a ORGANIZAÇÃO
articula esses processos com as estruturas existentes e
reorganiza todo o conjunto. Assim, o indivíduo constrói e
reconstrói continuamente as estruturas que o tornam cada vez
mais apto ao equilíbrio. Mas essas construções seguem um
padrão, em idades mais ou menos determinadas. São os
estágios, que se dividem em vários subestágios, com formas
específicas de inteligência.
ESTÁGIOS DESCREVEM
EVOLUÇÃO DO RACIOCÍNIO
Veja algumas características e
exemplos das principais etapas, segundo Piaget
Sensório-motor (0 a 2 anos)
A partir de reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir
esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio. A
inteligência é prática. As noções de espaço e tempo, por
exemplo, são construídas pela ação. O contato com o meio é
direto e imediato, sem representação ou pensamento
Pré-operatório (2 a 7 anos)
A criança se torna capaz de representar mentalmente pessoas e
situações. Já pode agir por simulação, "como se".
Sua percepção é global, sem discriminar detalhes. Deixa-se
levar pela aparência, sem relacionar aspectos. É centrada em
si mesma, pois não consegue colocar-se, abstratamente, no lugar
do outro
Operatório-concreto (7 a 11
anos)
Nessa fase, a criança já é capaz de relacionar diferentes
aspectos e abstrair dados da realidade. Não se limita a uma
representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto
para chegar à abstração. Desenvolve também a capacidade de
refazer um trajeto mental, voltando ao ponto inicial de uma
situação
Lógico-formal (12 anos em
diante)
A representação agora permite a abstração total. A criança
não se limita mais à representação imediata nem somente às
relações previamente existentes, mas é capaz de pensar em
todas as relações possíveis logicamente.

Piaget sempre bateu duro
na escola tradicional e defendeu práticas baseadas em jogos,
pesquisas e trabalhos em grupo. Veja o que ele escreveu:
MINIADULTOS
"A educação tradicional sempre tratou a criança como um
pequeno adulto, um ser que raciocina e pensa como nós, mas
desprovido simplesmente de conhecimentos e de experiência.
Sendo a criança, assim, apenas um adulto ignorante, a tarefa do
educador não era tanto a de formar o pensamento, mas sim de
equipá-lo."
O REI DA CLASSE
"A escola tradicional não conhece outro relacionamento
social além daquele que liga um professor, espécie de soberano
detentor da verdade intelectual e moral, a cada aluno
considerado individualmente."
O BOM ENSINO
"A escola ativa pressupõe, ao contrário, uma comunidade
de trabalho, com alternância entre o trabalho individual e o
trabalho em grupo."
O ALUNO ATIVO
"O professor deve conferir especial relevo à pesquisa
espontânea da criança ou do adolescente. Toda verdade a ser
adquirida deve ser reinventada pelo aluno, ou pelo menos
reconstruída, e não simplesmente transmitida."
MESTRE-COMPANHEIRO
"O que se deseja é que o professor deixe de ser apenas um
conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, ao invés
de se contentar com a transmissão de soluções já
prontas."
TIRANIA INTELECTUAL
"Na realidade, a educação constitui um todo
indissociável. Não se pode formar personalidades autônomas no
domínio moral se o indivíduo é submetido a um constrangimento
intelectual de tal ordem que tenha de se limitar a aprender por
imposição, sem descobrir por si mesmo a verdade: se é passivo
intelectualmente, não conseguirá ser livre moralmente."
PAPEL INSUBSTITUÍVEL
"É evidente que o educador continua indispensável, a
título de animador, para criar situações e armar os
dispositivos iniciais capazes de suscitar problemas úteis à
criança. E para organizar, em seguida, contra-exemplos que
levem à reflexão e obriguem ao controle das soluções
apressadas."
HONRA AO MÉRITO
"Vamos nos limitar, como exemplo do que pode ser feito com
os modestos meios e sem nenhum incentivo particular por parte
dos ministérios responsáveis, a lembrar a notável obra
realizada pelo (educador francês) Célestin Freinet."
"Quando se respeitar a criança, terá
fim essa escola em que professores reprovam alunos e saem
tranqüilamente de férias"
Reflexões do
pedagogo Lauro de Oliveira Lima, fundador do Centro Experimental
Jean Piaget, no Rio de Janeiro
(transcrito da revista Nova
Escola)

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intenção exclusiva de ajuda aos professores.

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