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PAULO
FREIRE
O MÉTODO PAULO FREIRE
Texto de Sonia Couto
Souza Feitosa como parte da dissertação de mestrado defendida na
FE-USP (1999) intitulada: "Método Paulo Freire: princípios e práticas
de uma concepção popular de educação"
1 -
Introdução
Existem diversos e conhecidos
trabalhos sobre o Método Paulo Freire. Não queremos reproduzi-los aqui.
Buscaremos entender quais são os princípios e práticas deste Método já que
o próprio Paulo Freire entendia tratar-se muito mais de uma Teoria do
Conhecimento do que de uma metodologia de ensino,
muito
mais um método de aprender
que um método de
ensinar.
Paulo Freire marcou uma ruptura
na história pedagógica de seu país e da América Latina. Através da criação
da concepção de educação popular ele consolidou um dos paradigmas mais
ricos da pedagogia contemporânea rompendo radicalmente com a educação
elitista e comprometendo-se verdadeiramente com homens e mulheres. Num
contexto de massificação, de exclusão, de desarticulação da escola com a
sociedade, Freire dá sua efetiva contribuição para a formação de uma
sociedade democrática ao construir um projeto educacional radicalmente
democrático e libertador. Assim sendo, seu pensamento e sua obra é, e
continuará sendo, um marco na pedagogia nacional e
internacional.
Ao longo de sua militância
educacional, social e política, Freire jamais deixou de lutar pela
superação da opressão e desigualdades sociais entendendo que um dos
fatores determinantes para que ela se dê é o desenvolvimento da
consciência crítica através da consciência histórica. Seu projeto
educacional sempre contemplou essa prática, construindo sua teoria do
conhecimento com base no respeito pelo educando, na conquista da autonomia
e na dialogicidade enquanto princípios metodológicos.
Esse pensar crítico e libertador
que permeia sua obra, serve como inspiração para educadores do mundo
inteiro que acreditam ser possível unir as pessoas numa sociedade com
eqüidade e justiça. Isso faz com que Paulo Freire seja hoje um dos
educadores mais lidos do mundo.
Nas últimas décadas, temos
presenciado a evolução e recriação de suas teses epistemológicas, ou seja,
sua teoria do conhecimento, que apontam para a construção de novos
paradigmas educacionais e constante recriação da práxis pedagógica
libertadora.
2 - Pressupostos do
Método
A proposta de Freire parte do
Estudo da Realidade (fala do educando) e a Organização dos Dados (fala do
educador). Nesse processo surgem os Temas Geradores, extraídos da
problematização da prática de vida dos educandos. Os conteúdos de ensino
são resultados de uma metodologia dialógica. Cada pessoa, cada grupo
envolvido na ação pedagógica dispõe em si próprio, ainda que de forma
rudimentar, dos conteúdos necessários dos quais se parte. O importante não
é transmitir conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma de
relação com a experiência vivida. A transmissão de conteúdos estruturados
fora do contexto social do educando é considerada "invasão cultural" ou
"depósito de informações" porque não emerge do saber popular. Portanto,
antes de qualquer coisa, é preciso conhecer o aluno. Conhecê-lo enquanto
indivíduo inserido num contexto social de onde deverá sair o "conteúdo" a
ser trabalhado.
Assim sendo, "não se admite uma
prática metodológica com um programa previamente estruturado assim como
qualquer tipo de exercícios mecânicos para verificação da aprendizagem,
formas essas próprias da "educação bancária", onde o saber do professor é
depositado no aluno, práticas essas domesticadoras. (BARRETO, s.d. p. 4).
O relacionamento educador-educando nessa perspectiva se estabelece na
horizontalidade onde juntos se posicionam como sujeitos do ato do
conhecimento. Elimina-se portanto toda relação de autoridade uma vez que
essa prática inviabiliza o trabalho de criticidade e
conscientização.
Segundo Freire o ato educativo
deve ser sempre um ato de recriação, de re-significação de significados. O
Método Paulo Freire tem como fio condutor a alfabetização visando à
libertação. Essa libertação não se dá somente no campo cognitivo mas
acontece essencialmente nos campos social e político. Para melhor entender
este processo precisamos ter clareza dos princípios que constituem
o método e que estão diretamente relacionados às idéias do educador que o
concebeu.
1º - O primeiro princípio do
"Método Paulo Freire" diz respeito à politicidade do ato
educativo.
Um dos axiomas do Método em
questão é que não existe educação neutra. A educação vista como construção
e reconstrução contínua de significados de uma dada realidade prevê a ação
do homem sobre essa realidade. Essa ação pode ser determinada pela crença
fatalista da causalidade e, portanto, isenta de análise uma vez que ela se
lhe apresenta estática, imutável, determinada, ou pode ser movida pela
crença de que a causalidade está submetida a sua análise, portanto sua
ação e reflexão podem alterá-la, relativizá-la, transformá-la.
A visão ingênua que homens e
mulheres têm da realidade faz deles escravos, na medida em que não sabendo
que podem transformá-la, sujeitam-se a ela. Essa descrença na
possibilidade de intervir na realidade em que vivem é alimentada pelas
cartilhas e manuais escolares que colocam homens e mulheres como
observadores e não como sujeitos dessa realidade.
O que existe de mais atual e
inovador no Método Paulo Freire é a indissociação da construção dos
processos de aprendizagem da leitura e da escrita do processo de
politização. O alfabetizando é desafiado a refletir sobre seu papel na
sociedade enquanto aprende a escrever a palavra sociedade; é desafiado a
repensar a sua história enquanto aprende a decodificar o valor sonoro de
cada sílaba que compõe a palavra história. Essa reflexão tem por objetivo
promove a superação da consciência ingênua - também conhecida como
consciência mágica - para a consciência crítica.
Na experiência de Angicos, assim
como em outros lugares onde foi adotado o método, as salas de aula
transformaram-se em fóruns de debate, denominados "Círculos de Cultura".
Neles, os alfabetizandos aprendiam a ler as letras e o mundo e a escrever
a palavra e também a sua própria história.
Através de slides contendo cenas
de seu cotidiano esses trabalhadores/educandos discutiam sobre o
desenrolar de suas vidas reconstruindo sua história, sendo desafiados a
perceberem-se enquanto sujeitos dessa história. Nesse contexto era
apresentada uma palavra aos educandos - ligada a esse cotidiano e
previamente escolhida - e, através do estudo das famílias silábicas que a
compunham, o educando apropriava-se do conhecimento do código escrito ao
mesmo tempo que refletia sobre sua história de vida.
O professor, contrariando a visão
tradicionalista que atribui a ele o papel privilegiado de detentor do
saber, é denominado "Animador de debates" e tem o papel de coordenar o
debate, problematizar as discussões para que opiniões e relatos surjam.
Cabe também ao educador conhecer o universo vocabular dos educandos, o seu
saber traduzido através de sua oralidade, partindo de sua bagagem cultural
repleta de conhecimentos vividos que se manifestam através de suas
histórias, de seus "causos" e, através do diálogo constante, em parceria
com o educando, reinterpretá-los, recriá-los.
Os alfabetizados, ao dialogar
com seus pares e com o educador sobre o seu meio e sua realidade, têm a
oportunidade de desvelar aspectos dessa realidade que até então poderiam
não ser perceptíveis. Essa percepção se dá em decorrência da análise das
condições reais observadas uma vez que passam a observá-la mais
detalhadamente. Uma re-admiração da realidade inicialmente discutida em
seus aspectos superficiais será realizada, porém com uma visão mais
crítica e mais generalizada. Essa nova visão, não mais ingênua, mas
crítica vai instrumentalizá-los na busca de intervenção para
transformação.
Todo esse movimento de
observação-reflexão-readmiração-ação faz do Método Paulo Freire uma
metodologia de caráter eminentemente político.
2º - O segundo princípio do
Método diz respeito a dialogicidade do ato educativo.
Segundo Harmon, a pedagogia
proposta por Freire é fundamentada numa antropologia filosófica dialética
cuja meta é o engajamento do indivíduo na luta por transformações sociais
(HARMON, 1975:89). Sendo assim, para Freire, a base da pedagogia é o
diálogo. A relação pedagógica necessita ser, acima de tudo, uma relação
dialógica.
Essa premissa está presente no
método em diferentes situações: entre educador e educando, entre educando
e educador e o objeto do conhecimento, entre natureza e
cultura.
Sempre em busca de um humanismo
nas relações entre homens e mulheres, a educação, segundo Paulo Freire,
tem como objetivo promover a ampliação da visão de mundo e isso só
acontece quando essa relação é mediatizada pelo diálogo. Não no monólogo
daquele que, achando-se saber mais, deposita o conhecimento, como algo
quantificável, mensurável naquele que pensa saber menos ou nada saber.
A atitude dialógica é, antes de tudo, uma atitude de amor,
humildade e fé nos homens, no seu poder de fazer e de refazer, de criar e
de recriar (FREIRE, 1987:81).
A dialogicidade, para Paulo
Freire, está ancorada no tripé educador-educando-objeto do
conhecimento. A indissociabilidade entre essas três "categorias
gnosiológicas" é um princípio presente no Método a partir da busca do
conteúdo programático. O diálogo entre elas começa antes da situação
pedagógica propriamente dita. A pesquisa do universo vocabular, das
condições de vida dos educandos é um instrumento que aproxima
educador-educando-objeto do conhecimento numa relação de justaposição,
entendendo-se essa justaposição como atitude democrática,
conscientizadora, libertadora, daí dialógica.
O diálogo entre natureza e
cultura, está presente no Método Paulo Freire a partir da idéia de
homens e mulheres enquanto produtores de cultura. Para a introdução do
conceito de cultura, ao mesmo tempo gnosiológica e antropológica, Freire
selecionou dez situações existenciais
"codificadas" para levar os
grupos à sua respectiva "decodificação". Francisco Brenand um expressivo
pintor brasileiro retratou essas situações. A utilização dessas situações
existenciais, já naquela época, proporcionava uma perfeita integração
entre educação e arte, proposta que atualmente é referendada nos
Parâmetros Curriculares Nacionais. Essas gravuras representando cenas da
vida dos alfabetizados, apresentavam, por serem um recorte da realidade,
o cenário natural para que os debates, partindo deste contexto
existencial, não fosse apenas um blá, blá, blá (expressão usada diversas
vezes por Freire) sobre o vazio, mas que fosse uma rica exposição de
idéias sobre o seu mundo e sobre a sua ação nesse mundo capaz de
transformá-lo com seu trabalho. Aprender é um ato de conhecimento da
realidade concreta, isto é, da situação real vivida pelo educando e só
tem sentido se resultar de uma aproximação crítica dessa
realidade.
O diálogo entre natureza e
cultura, entre o homem e a cultura e entre o homem e a natureza se
constituía em uma prática comum na alfabetização de jovens e adultos
proposta por Freire. Fernando Menezes descreve como esse diálogo se
efetivava nos Círculos de Cultura:
Os debates têm início na
primeira hora que o homem participa do círculo de cultura. Em vinte
minutos, uma turma de analfabetos é capaz de fazer a distinção
fundamental para o método: natureza diferente de cultura. Para
chegar a esse resultado, se utiliza através de slides ou quadros,
uma cena cotidiana do meio onde vive o grupo. Como exemplo,
citaremos uma cena do campo: um homem, sua palhoça, uma cacimba, um
pássaro voando e uma árvore. O mestre exige de todos a descrição
daquela cena, e em seguida, indaga o que o homem fez e o que ele não
fez naquele quadro. Ao obter as respostas deixa logo indicada a
diferença: o que o homem faz é Cultura e o que ele não faz é
Natureza.
(Jornal do Comércio, Recife,
em 09/03/63)
Uma metodologia que promova o
debate entre o homem, a natureza e a cultura, entre o homem e o trabalho,
enfim entre o homem e o mundo em que vive, é uma metodologia dialógica e,
como tal, prepara o homem para viver o seu tempo, com as contradições e os
conflitos existentes, e conscientiza-o da necessidade de intervir nesse
tempo presente para a construção e efetivação de um futuro
melhor.
4 - Momentos e Fases do
Método
Do ponto de vista semântico, a
palavra "método" pode significar: "caminho para chegar a um fim; caminho
pelo qual se atinge um objetivo; programa que regula previamente uma série
de operações que se devem realizar, apontando erros evitáveis, em vista de
um resultado determinado; processo ou técnica de ensino: método direto;
modo de proceder; maneira de agir; meio" (FERREIRA, 1986:1128).
A palavra "método" da forma como
é definida em seu "sentido de base" não retrata com fidelidade a idéia e o
trabalho desenvolvido por Freire. É no "sentido contextual", carregado dos
princípios de seu idealizador, que a palavra método é utilizada em larga
escala.
Em entrevista concedida à Nilcéia
Lemos Pelandré, em 14/04/1993, Freire diz o seguinte:
Eu preferia dizer que não
tenho método. O que eu tinha, quando muito jovem, há 30 anos ou 40
anos, não importa o tempo, era a curiosidade de um lado e o
compromisso político do outro, em face dos renegados, dos negados,
dos proibidos de ler a palavra, relendo o mundo. O que eu tentei
fazer e continuo hoje, foi ter uma compreensão que eu chamaria de
crítica ou de dialética da prática educativa, dentro da qual,
necessariamente, há uma certa metodologia, um certo método, que eu
prefiro dizer que é método de conhecer e não um método de ensinar
(PELANDRÉ, 1998:298).<
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Embora concordemos com Freire, a
expressão "Método Paulo Freire" é hoje uma expressão universalizada e
cristalizada como referência de uma "concepção democrática, radical e
progressista de prática educativa", razão pela qual usamos essa expressão
ao longo deste texto.
Essa insistência em classificar a
metodologia de Freire em termos de Método ou Sistema se dá pelo fato dela
compreender uma certa sequenciação das ações, ou melhor dizendo, ela
estrutura-se em momentos que, pela sua natureza dialética, não são
estanques, mas estão interdisciplinarmente ligados entre si.
Para situar melhor essa
sequenciação indicaremos aqui os momentos que compõem a metodologia criada
por Freire:
1º Momento: Investigação
Temática – Pesquisa Sociológica: investigação do universo vocabular e
estudo dos modos de vida na localidade (Estudo da Realidade). Segundo
Beisiegel:
O método começava por
localizar e recrutar os analfabetos residentes na área escolhida para
os trabalhos de alfabetização. Prosseguia mediante entrevistas com os
adultos inscritos nos "círculos de cultura" e outros habitantes
selecionados entre os mais antigos e os mais conhecedores da
realidade. Registravam-se literalmente as palavras dos entrevistados a
propósito de questões referidas às diversas esferas de suas
experiências de vida no local: questões sobre experiências vividas na
família, no trabalho, nas atividades religiosas, políticas recreativas
etc. O conjunto das entrevistas oferecia à equipe de educadores uma
extensa relação das palavras de uso corrente na localidade. Essa
relação era entendida como representativa do universo vocabular
local e delas se extraíam as palavras geradoras – unidade
básica na organização do programa de atividades e na futura orientação
dos debates que teriam lugar nos "círculos de cultura" ( BEISIEGEL,
1974, p. 165)
Como podemos perceber, o estudo
da realidade não se limita à simples coleta de dados e fatos, mas deve,
acima de tudo, perceber como o educando sente sua própria realidade
superando a simples constatação dos fatos; isso numa atitude de constante
investigação dessa realidade. Esse mergulho na vida do educando fará o
educador emergir com um conhecimento maior de seu grupo-classe, tendo
condições de interagir no processo ajudando-o a definir seu ponto de
partida que irá traduzir-se no tema gerador geral.
A expressão tema gerador
geral está ligada à idéia de Interdisciplinaridade e está presente na
metodologia freireana pois tem como princípio metodológico a promoção de
uma aprendizagem global, não fragmentada. Nesse contexto, está subjacente
a noção holística, de promover a integração do conhecimento e a
transformação social. Do tema gerador geral sairá o recorte para cada uma
das áreas do conhecimento ou, para as palavras geradoras. Portanto, um
mesmo tema gerador geral poderá dar origem à várias palavras geradoras que
deverão estar ligadas a ele em função da relação social e que os
sustenta.
2º Momento: Tematização:
seleção dos temas geradores e palavras geradoras.
Através da seleção de temas e
palavras geradoras, realizamos a codificação e decodificação desses temas
buscando o seu significado social, ou seja, a consciência do vivido.
Através do tema gerador geral é possível avançar para além do limite de
conhecimento que os educandos têm de sua própria realidade, podendo assim
melhor compreendê-la a fim de poder nela intervir criticamente. Do tema
gerador geral deverão sair as palavras geradoras. Cada palavra
geradora deverá ter a sua ilustração que por sua vez deverá suscitar novos
debates. Essa ilustração (desenho ou fotografia) sempre ligada ao tema,
tem como objetivo a "codificação", ou seja, a representação de um aspecto
da realidade, de uma situação existencial construída pelos educandos em
interação com seus elementos.
3º Momento:
Problematização: busca da superação da primeira visão ingênua por
uma visão crítica, capaz de transformar o contexto vivido. "A
problematização nasce da consciência que os homens adquirem de si mesmos
que sabem pouco a próprio respeito. Esse pouco saber faz com que os homens
se transformem e se ponham a si mesmos como problemas"(JORGE,
1981:78).
Após a etapa de investigação
(estudo da realidade), passa-se à seleção das palavras geradoras, que
deverá obedecer a três critérios básicos:
a) Elas devem necessariamente
estar inseridas no contexto social dos educandos.
b) Elas devem ter um teor
pragmático, ou melhor, as palavras devem abrigar uma pluralidade de
engajamento numa dada realidade social, cultural, política
etc...
c) Elas devem ser
selecionadas de maneira que sua seqüência englobe todos os fonemas da
língua, para que com seu estudo sejam trabalhadas todas as
dificuldades fonéticas.
Essa seleção deve ser conjunta,
cabendo porém ao educador a seleção gradual das dificuldades fonéticas,
uma vez que o método é silábico. Os fonemas trabalhados numa aula deverão
ser registrados numa ficha ou no próprio caderno para que o educando, em
casa, seja desafiado a construir novas palavras (uma vez que algumas já
foram criadas pelo grupo), comparar com as já criadas, descobrindo
semelhanças e/ou diferenças entre elas. Nesse processo de construção de
novas palavras, leitura e escrita acontecem simultaneamente.
É importante que o educador
mostre aos educandos a articulação oral dos valores das vogais nos fonemas
para facilitar o reconhecimento sonoro de cada uma das vogais.
Em seu livro Educação como
Prática da Liberdade Freire propõe a execução prática do Método em
cinco fases, a saber:
1ª Fase: levantamento do
universo vocabular dos grupos com quem se trabalhará. Essa fase
se constitui num importante momento de pesquisa e conhecimento do grupo,
aproximando educador e educando numa relação mais informal e portanto mais
carregada de sentimentos e emoções. É igualmente importante para o contato
mais aproximado com a linguagem, com os falares típicos do
povo.
2ª Fase: escolha das palavras
selecionadas do universo vocabular pesquisado. Como já afirmamos
anteriormente, esta escolha deverá ser feita sob os critérios: a) da
riqueza fonética; b) das dificuldades fonéticas, numa seqüência gradativa
dessas dificuldades; c) do teor pragmático da palavra, ou seja, na
pluralidade de engajamento da palavra numa dada realidade social,
cultural, política etc...
3ª Fase: criação de situações
existenciais típicas do grupo com quem se vai trabalhar. São situações
desafiadoras, codificadas e carregadas de elementos que serão
descodificados pelo grupo com a mediação do educador. São situações locais
que discutidas abrem perspectivas para a análise de problemas regionais e
nacionais.
4ª Fase: Elaboração de
fichas-roteiro que auxiliem os coordenadores de debate no seu
trabalho. São fichas que deverão servir como subsídios, mas sem uma
prescrição rígida a seguir.
5ª Fase: Elaboração de fichas
com a decomposição das famílias fonéticas correspondentes aos
vocábulos geradores. Esse material poderá ser confeccionado na forma de
slides, stripp-filmes (fotograma) ou cartazes.
A proposta de utilização dessa
metodologia na alfabetização de jovens e adultos foi completamente
inovadora e diferente das técnicas até então utilizadas que eram, na
maioria das vezes, resultado de adaptações simplistas das cartilhas, com
forte tônica infantilizante. Foi diferente por possibilitar uma
aprendizagem libertadora, não mecânica, mas uma aprendizagem que requer
uma tomada de posição frente aos problemas que vivemos. Uma aprendizagem
integradora, abrangente, não compartimentalizada, não fragmentada, com
forte teor ideológico. Foi diferente pois promovia a horizontalidade na
relação educador-educando, a valorização de sua cultura, de sua oralidade,
enfim, foi diferente, acima de tudo, pelo seu caráter humanístico. Dessa
forma, o Método proposto por Freire rompeu com a concepção utilitária do
ato educativo propondo uma outra forma de alfabetizar. Cabe aqui também o
registro que Paulo Freire, ao trabalhar com slides, gravuras, enfim
materiais audiovisuais foi um dos pioneiros na utilização da linguagem
multimídia na alfabetização de adultos. Isso prova o quanto Freire estava
à frente de seu tempo.
No entanto, desde a sua origem e
aplicação na década de 60 até os dias atuais, o Método Paulo Freire vem
suscitando controvérsias, se constituindo em assunto polêmico para a
realização de teses, simpósios, mesas-redondas, publicação de livros e
artigos, além de se constituir em fonte de estudo, pesquisa e também
aplicação em diferentes partes do Brasil e do mundo.
O Método Paulo Freire continua
vivo e em evolução entre aqueles que trabalham com as suas idéia, mas
reafirmamos a necessidade de recriação constante em toda e qualquer
prática educativa, inclusive no método em questão.
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