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 Howard Gardner

 

O psicólogo americano de 56 anos é professor de Cognição e Educação e integrante do Projeto Zero, um grupo de pesquisa em cognição humana mantido pela Universidade de Harvard. Também leciona neurologia na Escola de Medicina da Universidade de Boston. Escreveu dezoito livros.

O que ficou
A escola deve valorizar as diferentes habilidades dos alunos e não apenas a lógico-matemática e a lingüística, como é mais comum.

Um alerta
Para que as diversas inteligências sejam desenvolvidas, a criança tem de ser mais que uma mera executora de tarefas. É preciso que ela seja levada a resolver problemas.

Dezoito anos se passaram desde que o livro Estruturas da Mente: Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, foi lançado nos Estados Unidos. Publicado no Brasil em 1994, ele causou um boom. De lá para cá, a teoria do psicólogo americano, que propõe a existência de um espectro de inteligências a comandar a mente humana, suscitou muitos comentários, contrários e favoráveis.

De acordo com Gardner, estas seriam nossas sete inteligências:

Lógico-matemática: capacidade de realizar operações matemáticas e de analisar problemas com lógica. Matemáticos e cientistas têm essa capacidade privilegiada.

Lingüística: habilidade de aprender línguas e de usar a língua falada e escrita para atingir objetivos. Advogados, escritores e locutores a exploram bem.

Espacial: capacidade de reconhecer e manipular uma situação espacial ampla ou mais restrita. É importante tanto para navegadores como para cirurgiões ou escultores.

Físico-cinestésica: potencial de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos. Dançarinos, atletas, cirurgiões e mecânicos se valem dela.

Interpessoal: capacidade de entender as intenções e os desejos dos outros e, conseqüentemente, de se relacionar bem com eles. É necessária para vendedores, líderes religiosos, políticos e, o mais importante, professores.

Intrapessoal: capacidade de a pessoa se conhecer, incluindo aí seus desejos, e de usar essas informações para alcançar objetivos pessoais.

Musical: aptidão na atuação, apreciação e composição de padrões musicais.

Atualmente, Gardner admite a existência de uma oitava inteligência, a naturalista, que seria a capacidade de reconhecer objetos na natureza, e discute outras, a existencial ou espiritual e até mesmo uma moral - sem, no entanto, adicioná-las às sete originais.

Foi observando crianças que o psicólogo americano Howard Gardner percebeu o que hoje parece óbvio: nossa inteligência é complexa demais para que os testes escolares comuns sejam capazes de medi-la. A base desses testes é a idéia tradicional de que a inteligência é uma só e varia de nível de pessoa para pessoa. Gardner se contrapõe a isso. Em 1983, no livro Estruturas da Mente, ele definiu sete inteligências: a lógico-matemática, a lingüística, a espacial, a corporal-cinestésica, a interpessoal, a intrapessoal e a musical (veja ao lado). O psicólogo diz que agora descobriu mais uma, a naturalista.

Gardner é um dos cabeças do Projeto Zero, grupo de pesquisa da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Nessa universidade ele dá aulas nos cursos de Psicologia e Educação. É professor também na Universidade de Boston.

O psicólogo esteve no Brasil em julho e lançou o livro As Artes e o Desenvolvimento Humano. Nesta entrevista exclusiva a Nova Escola, ele descreve a inteligência naturalista e esclarece dúvidas sobre a aplicação de sua teoria no ensino.

Nova Escola: O que é a inteligência naturalista?

HOWARD GARDNER: Essa oitava inteligência se refere à habilidade humana de reconhecer objetos na natureza. Em outras palavras, trata-se da capacidade de distinguir plantas, animais, rochas. É fácil perceber que isso é indispensável para a sobrevivência no ambiente natural. Já se sabe que áreas específicas do cérebro entram em ação quando precisamos nos valer dessa habilidade. Botânicos e pessoas que trabalham no campo, por exemplo, precisam explorar a inteligência naturalista para dar conta de suas atividades. Podemos ainda citar o criador da Teoria da Evolução, Charles Darwin, como alguém que possuía a inteligência naturalista em nível muito elevado. E não se pode esquecer de que ela é vital para as sociedades que ainda hoje dependem exclusivamente da natureza, como alguns índios da floresta amazônica.

NE: O senhor acredita que possa haver mais inteligências?

HG: Hoje estamos discutindo a possibilidade de haver uma nona inteligência, que chamamos de existencial. Essa inteligência está ligada à capacidade de considerar questões mais profundas da existência, de fazer reflexões sobre quem somos, de onde viemos ou por que morremos. Ainda não aceito inteiramente essa inteligência porque os cientistas não provaram que ela requer áreas específicas do cérebro. Por isso digo que existem oito inteligências e meia, embora a afirmação possa parecer um pouco estranha à primeira vista.

NE: As crianças nascem com todas as inteligências? Essas capacidades são herdadas geneticamente ou podem ser desenvolvidas, se exercitadas?

HG: Temos potenciais diferentes, mas todos nascemos com capacidade para desenvolver todas as inteligências. Fazemos isso naturalmente. A inteligência lingüística, por exemplo, é estimulada quando conversamos com outras pessoas. A musical, se cantamos todos os dias. Deve-se considerar também que a carga genética pode ser decisiva. Provavelmente Mozart herdou de seus pais uma habilidade musical genética superior à da maioria das pessoas, e isso influiu positivamente em sua carreira. Agora, é claro que, se Mozart tivesse sido criado num ambiente que não lhe proporcionasse contato algum com a música, suas chances de se tornar um compositor excepcional seriam pequenas.

NE: O que uma escola precisa fazer para trabalhar com a Teoria das Inteligências Múltiplas?

HG: As inteligências múltiplas não devem ser o objetivo de uma escola. O papel delas é funcionar como instrumentos para alcançar objetivos educacionais. Se alguém quiser educar crianças que saibam, por exemplo, se relacionar bem, precisa desenvolver as inteligências pessoais dessas crianças. Se alguém quiser ensinar conteúdos de determinadas disciplinas, como História ou Química, então deve utilizar as várias inteligências que todas as crianças têm e fazer delas instrumentos para que essas crianças aprendam os conteúdos desejados de maneira eficiente.

"Quando se focalizam poucos temas de estudo, fica mais fácil usar as inteligências múltiplas e ajudar os estudantes a entender melhor o que está sendo tratado" NE: Para usar a teoria, uma escola precisa mudar seu currículo?

HG: Como eu já disse antes, as inteligências múltiplas não devem ser o objetivo de uma escola. Elas também não devem determinar o que se ensina. O currículo precisa refletir os objetivos da escola e, de forma mais ampla, os da sociedade. Em geral, o currículo trata de um número muito grande de temas, por isso os alunos acabam se desinteressando pelas aulas. O ideal é trabalhar com um número pequeno de assuntos e, conseqüentemente, com mais profundidade. Quando se focalizam poucos temas de estudo, fica mais fácil usar as inteligências múltiplas e ajudar os estudantes a entender melhor o que está sendo tratado. De fato, acho que todo tema pode ser estudado de seis ou sete maneiras, usando-se, por exemplo, histórias, números, trabalhos de arte, projetos de grupo, experiências práticas e outros recursos. A teoria influi no currículo à medida que diversifica o modo de transmitir conhecimentos. Mais do que isso, ela amplia o próprio conceito de conhecimento.

NE: As escolas que tentam adotar a teoria, nos Estados Unidos e em outros países, estão tendo sucesso ou cometendo erros graves?

HG: As escolas, de maneira geral, ainda estão engatinhando no uso das inteligências múltiplas. Afinal, existe uma distância enorme entre a teoria científica e a prática em sala de aula. O maior problema dos educadores é que muitos deles ficam preocupados demais em classificar as crianças. Há professores que se perguntam o tempo todo se determinado aluno é lingüístico ou espacial. Mais importante do que essa classificação é constatar que todas as crianças têm várias inteligências e que todas essas inteligências precisam e podem ser desenvolvidas. Outro problema acontece quando a escola tenta elaborar um currículo que seja extenso o suficiente para abranger todas as inteligências. Esse caminho não é bom. É melhor reduzir o currículo a alguns tópicos importantes, por meio dos quais todas as inteligências possam ser desenvolvidas.

NE: Como se pode avaliar um estudante com base na teoria?

HG: Não tenho interesse algum em avaliar estudantes a partir da teoria. Estou interessado, sim, em definir o que desejamos que as crianças saibam fazer. Acho importante ver se queremos, por exemplo, que elas escrevam bem, façam experimentos científicos ou criem obras de arte. Definidos os objetivos, o professor ou os pais precisam conhecer o desempenho infantil nessas determinadas tarefas. Também é fundamental explicar à criança de que forma ela pode melhorar. Freqüentemente ela não usa apenas uma mas várias inteligências para realizar tais trabalhos. Sempre é bom lembrar que os testes escolares comuns examinam apenas as habilidades lingüística e lógico-matemática e, conseqüentemente, são muitos limitados. Confiamos mais do que deveríamos nesses instrumentos de avaliação.

NE: Como os professores podem melhorar seu desempenho a partir da teoria?

HG: Tenho observado isso e é fácil comprovar que o aprendizado do aluno melhora na mesma proporção em que o professor desenvolve suas próprias inteligências. As escolas têm mais sucesso se promovem seminários de professores e se esse corpo docente reconhece suas próprias inteligências, experimentando dar aulas de maneiras diferentes ou criticando o desempenho do colega de uma forma positiva. Uma experiência interessante que acontece nos Estados Unidos, numa escola experimental, são reuniões semanais onde um professor do grupo apresenta a seus colegas um trabalho feito por um de seus alunos. Durante a reunião, é discutida a aplicação do trabalho, seus objetivos, o desempenho do aluno e o que pode ser feito para que o estudante melhore. Isso é uma crítica construtiva. No meu país nós temos um ditado: cometa novos erros. Não é fácil se manter disposto a errar, mas, se você não estiver aberto ao erro, nunca vai melhorar seu desempenho.

NE: Considerando a teoria, qual é o papel dos pais na educação de seus filhos?

HG: Os pais devem observar seus filhos com cuidado, participando do maior número possível de atividades junto com eles. Assim, irão descobrir qual é o perfil de inteligências da criança. Acima de tudo, devem evitar o que chamo de narcisismos positivo e negativo. O primeiro ocorre quando um pai diz: "A única coisa que sei fazer é tocar piano, portanto meu filho precisa tocar piano". O segundo, quando afirma: "A única coisa que eu nunca pude fazer foi tocar piano, portanto meu filho precisa tocar piano". Os pais devem deixar a criança manifestar seus próprios interesses e ajudá-la a alcançar o que deseja.

UMA PESQUISA BRASILEIRA
A partir da teoria de Gardner, o professor Nílson José Machado definiu outra habilidade, a de desenhar

Quando o professor  Nílson José Machado tomou contato com o trabalho de Howard Gardner, em 1993, nenhum dos livros do psicólogo americano havia sido traduzido para o português. Nílson achou o primeiro livro de Gardner sobre as inteligências múltiplas por acaso, numa livraria. Debruçou-se sobre ele e, depois de um ano de estudo e reflexão, apresentou idéias para a adoção da teoria das diferentes habilidades humanas em sala de aula.

A partir da observação de alunos em classe, Nílson propôs uma oitava inteligência, a pictórica, que determina a capacidade de desenhar. O desenho, segundo ele, é uma importante forma de expressão da criança. Ela se revela antes mesmo das competências lingüística e lógico-matemática. Depois, justamente por valorizar essas últimas habilidades, a escola abandona a atividade.

"O que importa não é o número de inteligências", afirma Nílson. "O importante é a noção de que o aluno não pode ser avaliado apenas por uma ou duas de suas capacidades", explica. "Ele deve ser considerado por inteiro." O professor não tem interesse em reescrever ou criticar a obra de Gardner. Também não deseja dar continuidade ao trabalho do americano. Diz apenas ter partido dele para elaborar seus próprios estudos. Gardner, por sua vez, afirma não ter objeções às pesquisas de Nílson nem às de outros pesquisadores que definam novas inteligências. "Não conheço bem o trabalho do senhor Machado, então não posso comentar as conclusões dele de uma maneira responsável", diz o psicólogo americano.

"A escola deve considerar as pessoas inteiras e valorizar outras formas de demonstração de competências além dos tradicionais eixos lingüístico e lógico-matemático". Nílson José Machado, professor do Departamento de Metodologia  USP.

Artigos Transcritos da Revista Nova Escola On-line -  com a intenção exclusiva de ajuda aos professores.

ana.tessari@bol.com.br